terça-feira, 2 de julho de 2024

 

2 de Julho é a Verdadeira Independência do Brasil?!

 


Gabriel Rodriguez

A história da independência do Brasil é rica em eventos e personagens que muitas vezes são ofuscados pela narrativa oficial. Embora o 7 de setembro de 1822 seja amplamente celebrado como o Dia da Independência do Brasil, há um forte argumento de que a verdadeira libertação do domínio colonial português se deu no dia 2 de julho de 1823, na Bahia. Esta data, marcada pela vitória das tropas brasileiras sobre os portugueses nos arredores de Salvador, representa um momento em que a independência foi conquistada pelos povos – negros, índios, caboclos, mamelucos (gente comum, gente como a gente, brava gente) – e não apenas uma elite liderada por Dom Pedro I.



O famoso "Grito do Ipiranga", dado por Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga em São Paulo, simboliza a ruptura oficial com Portugal? No entanto, essa declaração foi apenas uma “etapa formal” em um processo mais longo e complexo de lutas. A chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808 deu início a tensões entre a corte e as elites locais, que culminariam anos depois na independência. Portugal só reconheceu formalmente a independência do Brasil em agosto de 1825, após negociações diplomáticas e militares, no entanto a luta sempre pertenceu a “brava gente brazileira”.



A Bahia desempenhou um papel crucial nesse processo. Desde o início do século XIX, a região foi palco de intensas lutas pela liberdade, culminando na batalha final em 2 de julho de 1823. Este evento marcou a verdadeira emancipação do território baiano, e consequentemente do Brasil, da presença portuguesa.



A celebração do 2 de julho é também uma homenagem aos “heróis populares” que lutaram pela liberdade baiana e brasileira. Entre eles, destacam-se: Joana Angélica: Madre superiora do Convento da Lapa, que foi assassinada ao tentar impedir a invasão portuguesa. Seu martírio a transformou em um símbolo de resistência. Joana Angélica era uma pessoa comum, uma religiosa que deu sua vida pela causa da liberdade, e por isso, muitas vezes, sua importância não é devidamente reconhecida na história nacional, fruto no que tudo indica do machismo e patriarcado na sociedade da época. Maria Quitéria: Vestida como homem, ela se alistou no exército e lutou bravamente, tornando-se uma das primeiras mulheres a combater nas forças armadas brasileiras. Maria Quitéria, uma simples camponesa, demonstrou uma coragem extraordinária que não é frequentemente exaltada na narrativa oficial. Essa heroína rompe com todos os padrões, uma ofensa “àqueles” que hoje e naquele tempo pregam que lugar de mulher é na cozinha. Maria Felipa: Líder de um grupo de mulheres que incendiou embarcações portuguesas e atacou soldados, sua coragem é lembrada como um exemplo de resistência feminina. Maria Felipa, uma mulher negra e pescadora, é um exemplo de como a participação das pessoas comuns foi fundamental, mas pouco valorizada. Nem precisasse dizer que é o racismo estrutural, estruturante que não permite que essa estória seja contada nos anais da historia. João das Botas: Um dos líderes das tropas baianas, organizou a resistência contra os portugueses e participou ativamente das batalhas pela independência, também “um comum”. João das Botas era um homem do povo, cuja liderança e bravura são muitas vezes esquecidas na história oficial. Frei Brayner e os Encourados de Pedrão: Este grupo de guerreiros destacou-se pela bravura nas batalhas, sendo liderado pelo corajoso Frei Brayner. Os Encourados de Pedrão eram pessoas simples, mas sua valentia foi crucial para a vitória, embora não recebam o devido reconhecimento. Corneteiro Lopes e Tambor Soledade: Instrumentistas que, com suas músicas e toques, inspiravam e coordenavam os movimentos das tropas. Corneteiro Lopes e Tambor Soledade, figuras humildes, desempenharam um papel essencial na moral e organização das tropas, mas sua contribuição é muitas vezes subestimada. Cacique Bartolomeu Jacaré: Líder indígena que lutou ao lado dos brasileiros contra os portugueses, representando a participação ativa dos povos nativos na luta pela independência. Cacique Bartolomeu Jacaré, um líder indígena, exemplifica como os povos nativos também foram cruciais nessa luta, ainda que sua participação seja frequentemente ignorada. Muitas vezes, a história preferiu contar a narrativa do 7 de setembro porque esses personagens ofendem o patriarcado, o machismo e o racismo institucional e estruturado de nossa sociedade. Precisamos, lutar ainda!?



Enquanto o 7 de setembro é celebrado com desfiles militares e cerimônias oficiais, o 2 de julho na Bahia é uma festa popular, marcada por desfiles, música e celebrações que envolvem toda a comunidade. Essa diferença reflete a natureza distinta dessas duas datas. O 7 de setembro pode ser visto como uma data marcada por um gesto simbólico de uma elite política, “maçônica”, enquanto o 2 de julho representa a luta concreta e participativa do povo brasileiro.




Estudiosos criticam o caráter elitista do 7 de setembro, descrevendo o processo como uma "usurpação" da verdadeira luta do povo. Eles argumentam que o 2 de julho deveria ser reconhecido nacionalmente como a data da verdadeira independência do Brasil, pois representa a vitória dos brasileiros comuns sobre o domínio colonial. Os livros de historia brasileiros deve dar o devido reconhecimento para esses homens e mulheres baianos/brasileiros que lutaram pela independência brasileira.



João Ubaldo Ribeiro, em sua obra "Viva o Povo Brasileiro", oferece um contorno detalhado de uma história que foi esquecida propositalmente, resgatando a importância da participação popular na luta pela independência.

Em sua obra "Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro apresenta uma narrativa que vai além dos relatos tradicionais sobre a história do Brasil. Ele resgata episódios esquecidos ou negligenciados propositalmente pela historiografia oficial, destacando a participação ativa e fundamental do povo comum na luta pela independência. Ribeiro aborda a resistência popular, os conflitos regionais e as diversas vozes que contribuíram para os movimentos de libertação, oferecendo um retrato mais completo e inclusivo do processo histórico brasileiro. Através de personagens complexos e histórias multifacetadas, o autor questiona as versões simplificadas e elitistas da história nacional, enfatizando a importância das narrativas populares e suas nuances para uma compreensão mais profunda da identidade e da luta do povo brasileiro por liberdade e autonomia.



Por fim, o 2 de julho de 1823 é uma data que merece ser celebrada como a verdadeira independência do Brasil. Essa data representa a libertação alcançada através da luta e sacrifício de pessoas comuns – negros, índios, caboclos – e heróis populares cujas ações foram fundamentais para a vitória sobre os portugueses. É uma celebração do espírito resiliente e da diversidade do povo brasileiro, que escreveu sua história com muita luta e não se curva a ninguém. O povo brasileiro demonstra no âmago de sua identidade uma determinação inquebrantável de lutar pela sua liberdade, que a história escrita por alguns poucos seja a verdadeira memória do nosso povo, espera-se, enfim.



Assim, quem sabe, um dia, o Brasil entenda que a história é escrita por aqueles que têm o poder, e isso se reflete na estrutura de poder atual e manutenção deste. Um exemplo claro é a mudança do nome do Aeroporto 2 de Julho em Salvador, que apesar dos protestos do povo baiano, foi renomeado por um nome que não representa o povo e o simbolismo histórico, assim é possível perceber que a memória afetiva e coletiva pode ser alterada pela vontade dos poderosos. A narrativa oficial do 7 de setembro precisa ser reconsiderada à luz dessa história/estória rica e multifacetada, reconhecendo o papel crucial do 2 de julho na construção de uma nação independente: a luta do povo e para o povo.








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