quarta-feira, 24 de abril de 2024

 

Fundamentalismo: Domando as Massas de manobra - O Poder dos Pastores na Manutenção do Controle.


 Gabriel Rodriguez

O fundamentalismo, um fenômeno que percorre a história da humanidade, revela-se como uma manifestação de extrema rigidez ideológica, muitas vezes acompanhada de intolerância e até violência contra aqueles que não compartilham das mesmas crenças. O termo "fundamentalismo" tem suas raízes na virada do século XX, quando um grupo de cristãos protestantes americanos se comprometeu a defender e propagar os princípios fundamentais da fé, como a inerrância das Escrituras e a divindade de Jesus Cristo. No entanto, ao longo dos anos, o termo passou a ser aplicado a uma variedade de contextos religiosos e políticos em todo o mundo.


No contexto da igreja, o fundamentalismo teve origens que remontam aos primórdios da fé cristã, por exemplo, inquisição, cruzadas, catequese, mas ganhou nova dimensão nos tempos modernos. Atualmente, vemos a emergência de um fundamentalismo religioso que se manifesta em várias denominações, inclusive na nova igreja de ordem neo-pentecostal, onde conceitos como eugenia e interpretações seletivas (enraizadas em fake news) da história são utilizados para promover agendas políticas conservadoras. Líderes religiosos, muitas vezes, se alinham com correntes políticas de direita, invocando a defesa dos valores familiares para promover uma narrativa de exclusão e opressão contra aqueles que não se enquadram em suas visões dogmáticas.


 Esse tipo de fundamentalismo não apenas perpetua uma visão distorcida da religião, mas também serve como um veículo para a disseminação de ideologias extremistas e autoritárias, alicerçadas no ódio. Vemos exemplos históricos, como o regime de Adolf Hitler na Alemanha, que instrumentalizou a eugenia, o "darwinismo social", e o nacionalismo para justificar atrocidades em nome de uma suposta “pureza racial”. Além disso, regimes fascistas têm sido notórios por sua exploração do fundamentalismo religioso como uma ferramenta de controle social e legitimação do poder político. Neste contexto, torna-se essencial priorizar os valores cristãos, destacando o amor ao próximo como fundamental. Ser cristão deve ser encarado não apenas como um título (de salvo e superior aos outros do mundo), mas sim como um convite para uma prática comprometida e ativa de atitude do bem no mundo.

No Brasil, não é incomum ver líderes religiosos e políticos defendendo abertamente a ditadura militar de 1964, glorificando-a como um período de ordem e progresso, enquanto ignoram ou minimizam as violações de direitos humanos e as atrocidades cometidas durante esse regime. Essa narrativa revisionista não apenas distorce a história, mas também contribui para a perpetuação de um sistema de opressão e autoritarismo que marginaliza qualquer forma de pensamento crítico ou divergente. Muitas vezes, essas distorções são até contrárias à verdade, como confundir "humanismo" com "comunismo", por exemplo, ao defender que todos têm direito a se alimentar e que o Estado deve garantir esse direito; ou "libertinagem" com "liberdagem de expressão", por exemplo, ao argumentar que tudo o que se diz não pode ser objeto de processo e condenação, sob a alegação de que todos os direitos são absolutos e não relativos, no entanto é salutar observar que o caso concreto norteia-se sempre no lúmen no bom senso com o fiel e a "cegueira" da Iustitia.  



O fundamentalismo religioso frequentemente alimenta a intolerância, gerando conflitos e violações dos direitos humanos em nome da fé. Um exemplo disso é a visão estreita que alguns grupos fundamentalistas têm sobre outras religiões, levando à demonização de divindades de matriz africana, como Exu, ao rotulá-las como entidades malignas, os tais "seus demônios". Essa intolerância religiosa se manifesta em atos de violência direta, como invasões a terreiros de religiões de matriz africana, destruição de imagens sagradas e perseguição a praticantes dessas crenças. Essas ações não apenas atacam a liberdade religiosa, mas também perpetuam estereótipos prejudiciais e reforçam hierarquias de poder baseadas na supremacia de uma única fé, que fortificam tais crenças perversas. O fundamentalismo, ao promover essa intolerância, nega a diversidade religiosa e os direitos fundamentais de cada indivíduo, minando os princípios de coexistência pacífica e respeito mútuo entre diferentes comunidades de fé em um Estado Democrático de Direito, fundamentado em valores laicos.

Além disso, a disseminação do fundamentalismo muitas vezes contribui para a normalização e aceitação de práticas autoritárias, que apresentam a ditadura como a solução preferencial para os desafios sociais e políticos. Sob a influência de líderes religiosos fundamentalistas, a população é frequentemente induzida a acreditar que um governo autoritário é a única maneira eficaz de manter a ordem social e moral, enquanto protege os valores tradicionais. Essa retórica se manifesta na ideia de que supostamente a esquerda destrói as escolas com valores "contra a família", levando à proposta de uma "escola sem partido”. Essa mentalidade cria uma aceitação passiva da violação dos direitos individuais e das liberdades democráticas em nome da suposta estabilidade e segurança proporcionada pela ditadura. Ao promover essa narrativa, os pastores e líderes religiosos fundamentalistas desempenham um papel crucial na legitimação e perpetuação de regimes autoritários, minando assim a resistência e a busca por alternativas democráticas.



O culto ministrado no medo, na culpa do pecado e na visão de um Deus punidor alimenta no subconsciente coletivo a aceitação passiva do uso indiscriminado da força (ditadura) em detrimento dos direitos individuais. Ao internalizar a ideia de um divino que exige submissão e castigo, muitas pessoas se tornam suscetíveis à manipulação por líderes religiosos ou políticos que se apresentam como portadores da vontade divina. Essa mentalidade cria uma dinâmica em que a obediência cega é valorizada em detrimento da autonomia e da justiça, com a suposta aceitação de Deus manifestada na figura de algum messias terreno (teocracia). No entanto, esse caminho de submissão e manipulação pode levar a um cenário apocalíptico de dor, sofrimento e guerra, onde a humanidade paga o preço por sua cegueira e falta de discernimento.

Portanto, o fundamentalismo, seja na religião ou na política, representa uma ameaça à liberdade individual, à diversidade de pensamento e à coexistência pacífica. Sendo de suma importância resistir a essas tendências intolerantes e buscar uma sociedade baseada no respeito mútuo, na justiça e na inclusão de todas as vozes, independentemente de suas crenças ou ideologias, encontrando caminhos que une valores e que edificam qualquer fé, como o amor presente em todas as formas de religião.



 

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