terça-feira, 2 de janeiro de 2024


 


Tijolos Espirituais: Reflexões sobre a Construção de Comunidades à Luz dos Ensinos de Jesus

No transcorrer dos Evangelhos, encontramos as palavras inspiradoras e os ensinamentos transformadores de Jesus, cujo foco principal recai sobre as dimensões espirituais da vida e os valores que fundamentam a conduta humana. No entanto, em meio a suas narrativas, não identificamos uma instrução explícita de Jesus para a “construção de igrejas” como as conhecemos atualmente.

Contudo, ao explorarmos as passagens dos Evangelhos, percebemos a ênfase de Jesus na importância da comunidade e da "união entre seus seguidores", ainda assim não está explicito a criação de igrejas como fazia os judeus antigos, em suas sinagogas. O emblemático e controvertido versículo de Mateus 18:20 ressoa como uma chamada à “comunhão” e não a construção, no que tudo indica: "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles". Essas palavras refletem a essência da "adoração coletiva" e da união espiritual, e não “a construção explícita de igrejas”, talvez o intuito primeiro dessa passagem, esteja exaltando o poder da egrégora, uma energia que surge quando um grupo de pessoas compartilha intenções, pensamentos e emoções semelhantes e não algo apenas material, institucional. 

A formação das igrejas como instituições organizadas, ao que parece, foi uma “evolução natural” ou uma forma de controle e manutenção do poder de Roma no intuito de conter a massa de Cristãos revoltosos contra o Império e seus abusos ocorridos principalmente após a ressurreição de Jesus. Neste sentido ou não, os apóstolos, inspirados por seus ensinamentos, “empenharam-se” em disseminar sua mensagem e construir 'comunidades' de adoradores comprometidos. 

No entanto, no início, enfrentaram a desafiadora questão de definir a quem era destinada a mensagem da boa nova:  aos judeus antigos, aos gentios ou a ambos, prova que a construção de igrejas não foi um pedido de Jesus explicitamente, no que tudo indica mera interpretação dos apóstolos, será que o Mestre esquecera de ministrar esse mandamento? Queria fundar uma religião de fato ou só reformar? Outro ponto controvertido é a complexa questão da acepção restritiva do povo de Deus em detrimento daqueles que seguiam outras religiões, tema relevante nesse contexto, desafiando os apóstolos a compreenderem a universalidade da mensagem de Jesus nesta controvertida fundação religiosa.



Assim, ao explorarmos os Evangelhos, encontramos "um suposto categórico, mas não de forma explicita" no que tange a chamada construção física de templos, no entanto uma poderosa exortação à construção de "comunidades vibrantes", é clara, baseadas nos princípios amorosos e compassivos proclamados por Jesus. A verdadeira igreja, nesse contexto, não reside nos "tijolos e argamassa", mas na união de corações dedicados a seguir os passos do Mestre. A análise desses desafios sugere que a escolha de Jesus em não estabelecer estruturas físicas pode ter raízes na sua crítica aos fariseus e saduceus da época. Esses líderes do templo eram frequentemente descritos como hipócritas e arrogantes e algumas vezes pedantes, representando um sistema que desprezava os mais pobres e considerava-se exclusivo para conversar com Deus, fazendo acepção de pessoa e tendo privilégios por bajular os representantes romanos. A resistência à construção formal de templos, por Jesus, pode ter sido uma rejeição deliberada a esse tipo de pensamento e doutrina, alinhando-se à abordagem mais acessível e inclusiva de Jesus (pregava em praças e nas margens de rios), sendo mais próxima aos ensinamentos dos Essénios e outros povos Judeus, indo ao encontro de um doutrina mais liberal, libertadora, uma vez que rejeitou os ensinamentos alienantes da época em suas sinagogas. 



Em uma imersão pelas páginas dos Evangelhos, nos deparamos com as mensagens atemporais e os ensinamentos revolucionários de Jesus. A ênfase na importância da comunidade, destacada pelo convite à “adoração coletiva”, egrégora em Mateus 18:20, e reforçada por Lucas 17:21, onde Jesus proclama que o "templo de Deus reside no interior", transcende a mera construção física de templos. Este aspecto abraça a formação de comunidades vibrantes, enraizadas nos princípios amorosos proclamados por Jesus. 

Outrossim, a evolução das igrejas como instituições organizadas pelos apóstolos não apenas reflete a disseminação da mensagem de Jesus, mas também revela a complexidade em definir a quem era destinada essa Boa Nova. A possibilidade de Jesus não ter explicitamente abordado a construção de igrejas com seus apóstolos, o fato de possuírem  duvidas a esse respeito só ratifica essa afirmação, adicionando uma intrigante camada de reflexão: será que a intenção de Jesus era de fundar uma religião? Será que só queria que sua mensagem fosse divulgada de forma oral, "sem igrejas", uma vez que nada escreveu? Será que era contrario a construção dos templos, pois as sinagogas que existiam na época eram dominadas por Fariseus e Sacudeus hipócritas, e portanto não queria poluir sua mensagem com tais práticas? Talvez, neste convite a reflexão lendo nas entrelinhas dos fatos históricos bíblicos possamos transcender o tal dogmatismo aprisionado.  



Em última análise, a abordagem universalista de Jesus emerge como um desafio à acepção restritiva do povo de Deus, incentivando-nos a transcender limitações e reconhecer a humanidade como uma comunidade interligada. A verdadeira essência da igreja, conforme delineada pelas palavras do Mestre, vai além da materialidade representada por "tijolos e argamassa". Ela reside na coesão de corações dedicados a seguir os princípios do amor e compreensão, conforme inspirados pela visão transcendentemente inclusiva de Jesus. Este chamado atemporal não se limita a estruturas físicas, mas impulsiona-nos a erguer comunidades vibrantes, fundamentadas na solidariedade e no compromisso mútuo. Ao celebrar a verdadeira comunhão espiritual, somos desafiados a romper barreiras, promovendo um entendimento mais profundo e cultivando um ambiente onde o amor genuíno floresce. Assim, ao seguir os passos do Mestre, encontramos não apenas um caminho espiritual, mas uma missão coletiva de construir um mundo onde a compaixão e a união prevalecem.

 

 



Gabriel Rodriguez


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